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O Flamengo médico e monstro que assusta e faz História derruba a LDU na altitude

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É inegável que este Flamengo ainda está longe de qualquer perfeição, comete erros e alterna dentro das próprias partidas. Merece críticas. Mas é ainda mais inegável que este time não cansa de entrar na História. Escreve capítulos diante de nossos olhos semanas após semanas. Um dia, certamente, chegará ao fim. Mas já fez o suficiente para ser eterno. A ótima vitória de 3 a 2 sobre a LDU na altitude de Quito foi mais uma bela página dourada no livro de capa dura do melhor Flamengo pós-Zico. Um jogo no qual o time apresentou tudo que tem de melhor e, de novo, momentos nos quais mostrou o que tem de pior. É médico. É monstro. Alterna. Mas o saldo ainda é positivo. É histórico.

O nada simples fato de Gabigol ter chegado aos 16 gols com a camisa rubro-negra na competição e igualado Zico é uma sirene. Está aí a História. Observem. Entre uma e outra bola na rede, uma e outra taça, engolida pela rotina cansativa de dias descontrolados de pandemia. Uma equipe que quando mantém a sua concentração no pico parece ser muito difícil de bater em campos sul-americanos. Ainda que altitude seja também adversária. Sem Rodrigo Caio e Gerson, dois pilares da equipe, Rogério Ceni optou por modificar minimamente a estrutura do time. Willian Arão seguiu na defesa, com Bruno Viana ao seu lado. No meio, João Gomes na vaga de Gerson. E não como primeiro volante. Esse papel cabia prioritariamente ainda a Diego. João Gomes, meia na base como já destacou Rogério, fez a função mais à frente. O 4-4-2 rubro-negro conhecido. Mas difícil de combater.

A estratégia de alta rotação foi até certo ponto arriscada. Um ritmo intenso mesmo a quase três mil metros de altitude, pressionando a saída de bola da LDU e tentando ao máximo aproveitar o time equatoriano espaçado. Óbvio que faltaria gás na segunda etapa. Mas talvez fosse suficiente para abrir vantagem e segurar. O primeiro tempo, então, foi um recital. Claro que a LDU postada em um 3-4-3, totalmente espaçada, colaborou. A equipe de Pablo Repetto simplesmente não achava o Flamengo em campo. Avançava e deixava muitos espaços principalmente entre o meio e os zagueiros. Até mesmo Ordoñez, pela esquerda, dava muitos passoa à frente e cedia um latifúndio. Ali Arrascaeta e Everton Ribeiro souberam trabalhar. Ou melhor, se fartar. Bruno Henrique e Gabigol, em velocidade, contra os zagueiros, também.

Não foi à toa o gol tão cedo, aos dois minutos. Everton Ribeiro quebrando para dentro, com espaço para olhar e lançar Gabigol na velocidade às costas da defesa. Campo livre para olhar, ajeitar o corpo e tocar na saída de Gabbarini. 1 a 0. Na altitude, o visitante pressionava. A LDU se impressionava. É raro que seja atacada tão no início do jogo. Está acostumada a jogar com o oxigênio – ou a falta dele – como aliado. Tonto, o time equatoriano assistiu. Pois o Flamengo funcionava muito bem. Agrupado. Isla disparado à direita – embora com muitos erros técnicos – Everton Ribeiro abrindo o corredor e buscando o centro do campo com Arrascaeta. Filipe Luís controlava a defesa ao lado de Arão e Bruno Viana. E por dentro um outro deleite. Diego, plenamente adaptado à função, ocupava o centro do campo e tinha em João Gomes um parceiro perfeito. O garoto cumpriu à risca o determinado e fez seu melhor jogo no profissional. Mostrou desenvoltura para sair com bom passe por dentro, teve tranquilidade mesmo na Libertadores e conseguiu pressionar por dentro, na frente, como Gerson.

O fluir do jogo rubro-negro, o recital no Casablanca, ficou claro com o segundo gol. Diego para João Gomes tocar de calcanhar de primeira a Bruno Henrique. Daí a Arrascaeta, com o corta-luz que deixou a bola achar Gabigol. A devolução foi na medida para Bruno Henrique medir ainda mais a batida da bola na altitude e mergulhar no ângulo esquerdo do goleiro. Golaço. Coletivo. Individual. 2 a 0. Não houve conserto para a LDU ainda no primeiro tempo. Talvez temeroso de sofrer o terceiro gol e sacramentar a derrota, tentou se recolher e reduzir espaços. Mas não conseguia. Um time ainda muito esgarçado, deixando os meias rubro-negros por dentro. O Flamengo sobrou na primeira etapa. O lado médico.

Aí, então, veio o monstro. Na volta para o segundo tempo Pablo Repetto teve seu méritos. Desfez o sistema com três zagueiros, utilizou três substituições e alternou o time a um 4-4-2, que, no fundo, se transfigurava a um 4-2-4 para pressionar o Flamengo, especialmente pelos lados. Um tudo ou nada. Uma vez mais o time rubro-negro baixou não só a intensidade, compreensível pela altitude, mas também a concentração. Como na partida contra o La Calera no Maracanã. Permitiu ao adversário avançar em bloco, ocupar mais o seu campo e tentar arremates. Os equatorianos apostaram muito no lado esquerdo do ataque. Ponto vulnerável rubro-negro, a defesa pelo lado direito. Com os avanços de Isla, Everton Ribeiro é ainda mais exigido para fechar o setor se a bola não é travada mais à frente. A aposta estava clara: bolas longas e cruzamentos ao máximo para tentar se valer da velocidade peculiar da bola a três mil metros de altitude. Bastaram 15 minutos.

Em cruzamento da esquerda, Borja se antecipou a Arão e desviou para o gol. Em escanteio da esquerda, a bola passou por Bruno Henrique e Arão para Amarilla tocar de barriga para o gol. 2 a 2. Um Flamengo estupefato, em choque. Física e psicologicamente vulnerável. Rogério se viu obrigado a modificar. João Gomes, sem condições físicas, pediu substituição. Hugo Moura entrou para se posicionar mais à frente da defesa, com Diego basicamente alinhado. O time sofria. E não apenas graças à altitude. Também pela atitude. Tentou controlar a partida com a vantagem, cedeu campo e espaço para ser bombardeado com bolas aéreas. E aí vale um parênteses: Hugo. O goleiro entrou no segundo tempo depois de Diego Alves pedir substituição.

O garoto apareceu nos profissionais como grande promessa. As virtudes, então, foram gritantes tanto quanto as deficiências. A dificuldade com os pés é clara. Mas em Quito Hugo demonstrou muita insegurança, principalmente nas saídas de gol. Vá lá que o tempo da bola seja diferente e o ar rarefeito exija respiração mais ofegante. Mas a insegurança do goleiro nas saídas de gol atrapalhou a equipe. Ameaçava sair e voltava. A partir da metade da segunda etapa, no entanto, o Flamengo voltou a equilibrar o jogo. Deixou de ser tão pressionado, passou a reter mais a bola. Respirou com duas faltas na frente da área – não aproveitadas, como sempre. A LDU diminuiu o ímpeto da primeira metade do segundo tempo. Rogério oxigenou o time com mais duas mudanças: Gustavo Henrique para combater as bolas aéreas na vaga de Bruno Viana e Vitinho para ocupar o lado direito em vez de Everton Ribeiro. O time teve mais inteligência.

Filipe Luís, aos 35 anos, talvez seja o grande exemplo disto. Sabe dosar energias e controla o jogo como deseja. Ótimo nas antecipações, nos passes e não é mais exigido no vaivém pela esquerda como ocorreu na época de Domènec Torrent, por exemplo. No atual time por vezes quase forma uma linha de três com Arão e o outro zagueiro e sai quando bem coberto. O entendimento com os companheiros já existe. A leitura mais ainda. Arrascaeta é mestre em atacar pelo lado esquerdo da grande área, às costas da defesa. Sabe que o passe, geralmente, chega. Foi assim contra o Volta Redonda, com Renê. E diante da LDU, com Filipe Luís, uma esticada na medida. Corozo atropelou o uruguaio de maneira constrangedora na área. Pênalti muito bem cobrado por Gabigol. Agora está lá nos livros rubro-negros: Gabriel Barbosa Almeida tem o mesmo número de gols, 16, que Arthur Antunes Coimbra em uma Libertadores. Não é pouco. Não é pouco mesmo. É histórico.

A partir daí o time soube se fechar. A aposta óbvia das bolas aéreas da LDU já não surtiam tanto efeito, apesar da insistente insegurança de Hugo. Uma vitória enorme de um Flamengo que apresentou o que de melhor tem e também momentos de puro desequilíbrio. É preciso corrigir falhas. Mas é preciso, também, admirar virtudes. Três vitórias seguidas nos três primeiros jogos da Libertadores. Inédito. Gabigol iguala Zico. Impressionante. Um Flamengo que hoje impõe respeito nos rivais sul-americanos. Capaz de cometer falhas e ainda assim vencer o Vélez na Argentina e a LDU na altitude de Quito. Ainda que seja médico e monstro. Não é pouco. É histórico. A olhos vistos.

FICHA TÉCNICA
LDU 2X3 FLAMENGO

Local: Estádio Casablanca, em Quito
Data: 04 de maio de 2021
Árbitro: Esteban Ostojich (URU)
VAR: Não houve
Público e renda: portões fechados
Cartões amarelos: Caicedo, Corozo, Piovi, Espinoza (LDU) e Hugo, Diego e Gabigol (FLA)
Gols: Gabigol (FLA), aos dois minutos, Bruno Henrique (FLA), aos 29 minutos do primeiro tempo e Borja (LDU), aos quatro minutos, Amarilla (LDU), aos 15 minutos, Gabigol (FLA), aos 39 minutos do segundo tempo

LDU: Gabbarini; Corozo (Quintero, 46’/2T), Ordoñez e Caicedo (Muñoz/Intervalo); Perlaza, Piovi (Espinoza, 29’/2T), Alcivar e Cruz (Ayala/Intervalo); Alcivar, Zunino (Amarilla / Intervalo), Billy Arce e Borja.
Técnico: Pablo Repetto

FLAMENGO: Diego Alves (Hugo / Intervalo), Isla, Willian Arão, Bruno Viana (Gustavo Henrique, 32’/2T) e Filipe Luís; Diego, João Gomes (Hugo Moura, 12’/2T), Arrascaeta e Everton Ribeiro (Vitinho, 32’/2T); Bruno Henrique e Gabigol (Renê, 42’/2T)
Técnico: Rogério Ceni

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